quinta-feira, janeiro 18, 2007

Manifesto Anti-Dantas

Basta PUM Basta!!!

Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!

Abaixo a geração!

Morra o Dantas, morra! PIM!

Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!

Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!

O Dantas é um cigano!

O Dantas é meio cigano!

O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias para cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!

O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!

O Dantas é um habilidoso!

O Dantas veste-se mal!

O Dantas usa ceroulas de malha!

O Dantas especula e inocula os concubinos!

O Dantas é Dantas!

O Dantas é Júlio!

Morra o Dantas, morra! PIM!

O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d'Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!

E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!

O Dantas é um ciganão!

Não é preciso ir pró Rossio para se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!

Não é preciso disfarçar-se para se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!

Morra o Dantas, morra! PIM!

O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!

O Dantas é um autómato que deita para fora o que a gente já sabe o que vai sair... Mas é preciso deitar dinheiro!

O Dantas é um soneto dele próprio!

O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.

O Dantas nu é horroroso!

O Dantas cheira mal da boca!

Morra o Dantas, morra! PIM!

O Dantas é o escárnio da consciência!

Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!

O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!

O Dantas é a meta da decadência mental!

E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!

E ainda há quem lhe estenda a mão!

E quem lhe lave a roupa!

E quem tenha dó do Dantas!

E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero!

Vocês não sabem quem é a soror Mariana do Dantas? Eu vou-lhes contar:

A princípio, por cartazes, entrevistas e outras preparações com as quais nada temos que ver, pensei tratar-se de soror Mariana Alcoforado a pseudo autora daquelas cartas francesas que dois ilustres senhores desta terra não descansaram enquanto não estragaram para português, quando subiu o pano também não fui capaz de distinguir porque era noite muito escura e só depois de meio acto é que descobri que era de madrugada porque o bispo de Beja disse que tinha estado à espera do nascer do Sol!

A Mariana vem descendo uma escada estreitíssima mas não vem só, traz também o Chamilly que eu não cheguei a ver, ouvindo apenas uma voz muito conhecida aqui na Brasileira do Chiado. Pouco depois o bispo de Beja é que me disse que ele trazia calções vermelhos.

A Mariana e o Chamilly estão sozinhos em cena, e às escuras, dando a entender perfeitamente que fizeram indecências no quarto. Depois o Chamilly, completamente satisfeito, despede-se e salta pela janela com grande mágoa da freira lacrimosa. E ainda hoje os turistas têm ocasião de observar as grades arrombadas da janela do quinto andar do Convento da Conceição de Beja na Rua do Touro, por onde se diz que fugiu o célebre capitão de cavalos em Paris e dentista em Lisboa.

A Mariana que é histérica começa a chorar desatinadamente nos braços da sua confidente e excelente pau de cabeleira soror Inês.

Vêm descendo pela dita estreitíssima escada, várias Marianas, todas iguais e de candeias acesas, menos uma que usa óculos e bengala e ainda toda curvada prá frente o que quer dizer que é abadessa.
E seria até uma excelente personificação das bruxas de Goya se quando falasse não tivesse aquela voz tão fresca e maviosa da Tia Felicidade da vizinha do lado. E reparando nos dois vultos interroga espaçadamente com cadência, austeridade e imensa falta de corda...

Quem está aí?... E de candeias apagadas?

- Foi o vento, dizem as pobres inocentes varadas de terror... E a abadessa que só é velha nos óculos, na bengala e em andar curvada prá frente manda tocar a sineta que é um dó d'alma o ouvi-la assim tão debilitada. Vão todas pró coro, mas eis que, de repente, batem no portão sem se anunciar nem limpar-se da poeira, sobe a escada e entra pelo salão um bispo de Beja que quando era novo fez brejeirices com a menina do chocolate.

Agora completamente emendado revela à abadessa que sabe por cartas que há homens que vão às mulheres do convento e que ainda há pouco vira um de cavalos a saltar pela janela. A abadessa diz que efectivamente já há tempos que vinha dando pela falta de galinhas e tão inocentinha, coitada, que naqueles oitenta anos ainda não teve tempo para descobrir a razão da humanidade estar dividida em homens e mulheres.

Depois de sérios embaraços do bispo é que ela deu com o atrevimento e mandou chamar as duas freiras de há pouco com as candeias apagadas. Nesta altura esta peça policial toma uma pedaço de interesse porque o bispo ora parece um polícia de investigação disfarçado em bispo, ora um bispo com a falta de delicadeza de um polícia de investigação, e tão perspicaz que descobre em menos de meio minuto o que o público já está farto de saber - que a Mariana dormiu com o Noel. O pior é que a Mariana foi à serra com as indiscrições do bispo e desata a berrar, a berrar como quem se estava marimbando pra tudo aquilo. Esteve mesmo muito perto de se estrear com um par de murros na coroa do bispo no que se mostrou de um atrevimento, de uma insolência e de uma decisão refilona que excedeu todas as expectativas.

Ouve-se uma corneta tocar uma marcha de clarins e Mariana sentindo nas patas dos cavalos toda a alma do seu preferido foi qual pardalito engaiolado a correr até às grades da janela gritar desalmadamente pelo seu Noel. Grita, assobia e rodopia e pia e rasga-se e magoa-se e cai de costas com um acidente, do que já previamente tinha avisado o público e o pano cai e o espectador também cai da paciência abaixo e desata numa destas pateadas tão enormes e tão monumentais que todos os jornais de Lisboa no dia seguinte foram unânimes naquele êxito teatral do Dantas.

A única consolação que os espectadores decentes tiveram foi a certeza de que aquilo não era a soror Mariana Alcoforado mas sim uma Merdariana Aldantascufurado que tinha cheliques e exageros sexuais.

Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de ganhar muito com o Alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estátua de prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional do «Século» a favor dos feridos da guerra, e a Praça de Camões mudada em Praça Dr. Júlio Dantas, e com festas da cidade pelos aniversários, e sabonetes em conta «Júlio Dantas» e pasta Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e Niveína Dantas, e comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas... E limonadas Dantas- Magnésia.

E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.

E fique sabendo o Dantas que se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.

Mas julgais que nisto se resume literatura portuguesa? Não Mil vezes não!

Temos, além disto o Chianca que já fez rimas prá Aljubarrota que deixou de ser a derrota dos Castelhanos pra ser a derrota do Chianca.

E as pinoquices de Vasco Mendonça Alves passadas no tempo da avozinha! E as infelicidades de Ramada Curto! E o talento insólito de Urbano Rodrigues! E as gaitadas do Brun! E as traduções só pra homem do ilustríssimos excelentíssimo senhor Mello Barreto! E o frei Matta Nunes Moxo! E a Inês Sifilítica do Faustino! E as imbecilidades do Sousa Costa! E mais pedantices do Dantas! E Alberto Sousa, o Dantas do desenho! E os jornalistas do Século e da Capital e do Notícias e do Paiz e do Dia e da Nação e da República e da Lucta e de todos, todos os jornais! E os actores de todos os teatros! E todos os pintores das Belas-Artes e todos os artistas de Portugal que eu não gosto. E os da Águia do Porto e os palermas de Coimbra! E a estupidez do Oldemiro César e o Dr. José de Figueiredo Amante do Museu e ah oh os Sousa Pinto hu hi e os burros de Cacilhas e os menos do Alfredo Guisado! E (o) raquítico Albino Forjaz de Sampaio, crítico da Lucta a quem Fialho com imensa piada intrujou de que tinha talento! E todos os que são políticos e artistas! E as exposições anuais das Belas-Artes! E todas as maquetas do Marquês de Pombal! E as de Camões em Paris; e os Vaz, os Estrela, os Lacerda, os Lucena, os Rosa, os Costa, os Almeida, os Camacho, os Cunha, os Carneiro, os Barros, os Silva, os Gomes, os velhos, os idiotas, os arranjistas, os impotentes, os celerados, os vendidos, os imbecis, os párias, os ascetas, os Lopes, os Peixotos, os Motta, os Godinho, os Teixeira, os Câmara, os diabo que os leve, os Constantino, os Tertuliano, os Grave, os Mântua, os Bahia, os Mendonça, os Brazão, os Matos, os Alves, os Albuquerques, os Sousas e todos os Dantas que houver por aí!!!!!!!!!

E as convicções urgentes do homem Cristo Pai e as convicções catitas do homem Cristo Filho!...

E os concertos do Blanch! E as estátuas ao leme, ao Eça e ao despertar e a tudo! E tudo o que seja arte em Portugal! E tudo! Tudo por causa do Dantas!

Morra o Dantas, morra! PIM!

Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mais atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degradados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!

Morra o Dantas, morra! PIM!

José de Almada Negreiros
Poeta d'Orpheu
Futurista E Tudo

Artémis

par Gérard Nerval

La Treizième revient... C'est encore la première;
Et c'est toujours la seule, - ou c'est le seul moment;
Car es-tu reine, ô toi!la première ou dernière?
Es-tu roi, toi le seul ou le dernier amant?...

aimez qui vous aima du berceau dans la bière;
Celle que j'aimai seul m'aime encor tendrement:
C'est la mort - ou la morte... O délice! Ô tourment!
Las rose qu'elle tient, c'est Rose trémière.

Sainte napolitaine aux mains pleines de feux,
Rose au coeur voilet, fleur de sainte Gudule:
As-tu trouvé ta croix dans le désert des cieux?

Roses blanches, tombez! Vous insultez nos dieux,
Tombez, fantômes blanc, de votre ciel qui brûle:
- Las sainte de l'abîme est plus sainte à mes yeux!

The Vincent

Poem written by Tim Burton.

Inspired by Edgar Allen Poe's 'The Raven' and children's stories by Dr. Seuss.


Vincent Malloy is seven years old
He's polite and always does as he's told
For a boy his age, he's considerate and nice
But he wants to be just like Vincent Price

He doesn't mind living with his sister, dog, and cats
Though he'd rather share a home with spiders and bats
There he could reflect on the horrors he has invented
and wander dark hallways alone and tormented

Vincent is nice when his aunt comes to see him
But imagines dipping her in wax for his wax museum
He likes to experiment on his dog Abocrombie
In the hopes of creating a horrible zombie
So that he and his horrible zombie dog
could go searching for victims in the London fog

His thoughts aren't only of ghoulish crime
He likes to paint and read to pass some of the time
While other kids read books like "Go Jane Go"
Vincent's favorite author is Edgar Allen Poe.

One night while reading a gruesome tale
he read a passage that made him turn pale
Such horrible news he could not survive
For his beautiful wife had been buried alive

He dug out her grave to make sure she was dead
Unaware that her grave was his mother's flower bed
His mother sent Vincent off to his room
He knew he'd been banished to the tower of doom
where he was sentenced to spend the rest of his life
alone with the portrait of his beautiful wife.

While alone and insane incased in his doom
Vincent's mother burst suddenly into the room
She said, "If you want, you can go out and play
It's sunny outside and a beautiful day."

Vincent tried to talk but he just couldn't speak
the years of isolation had made him quite weak
So he took out some paper and scrawled with a pen:
"I'm possessed by this house and can never leave it again."

His mother said, "You are NOT possessed and you are NOT almost dead
These games you play are all in your head
You are NOT Vincent Price, you're Vincent Malloy
You're not tormented or insane, you're just a young boy
You're seven years old, and you are my son
I want you to get outside and have some real fun."

Her anger now spent, she walked out through the hall
While Vincent backed slowly against the wall
The room started to sway, to shiver and creak
His horrored insanity had reached its peak
He saw Abocrombie, his zombie slave
and heard his wife call from beyond the grave

She spoke through her coffin and made ghoulish demands
While through cracking walls reached skeleton hands
Every horror in his life that had crept through his dreams
swept his mad laughter to terrified screams

To escape the badness, he reached for the door
but fell limp and lifeless down on the floor
His voice was soft and very slow
As he quoted "The Raven" by Edgar Allen Poe:
"And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted...Nevermore."

Um Desabafo

Oh infelicidade desta mata com as suas silvas que dilaceram as minhas veias, ensanguentando-me a minha alma perdida num limbo de seres corruptos e errantes desta vida superficial a que chamam de Humana.

As labaredas deste fogo interior que consome cada pensamento luxuriante que descrevo nesta pena de corvo negro como os teus olhos, que me observam numa latência de adoração de cada milímetro do meu ser, como de um deus menor se tratasse...

merecerá o meu ser esta julação deliciosa?

Cada meu ponto nevrálgico vibra na presença do teu corpo imaculado, tal mata virgem nunca antes tocada por seres impuros, que observo pacientemente como se fosse a primeira e ultima vez que os meus sentidos pudessem o contemplar

Oh abismo temporal que separa estes dois seres misantrópicos destinados a ser um só.
Com tanto a dar ao mundo e criar o seu próprio onde mais nenhum ser poderá entrar, tal éden desvirtuado pela podridão do ser que nos rodeia e tenta separar...

17:00 06-10-2006

Sentença proferida em 1487

Do Arquivo Nacional da Torre do Tombo

SENTENÇA PROFERIDA EM 1487 NO PROCESSO CONTRA O PRIOR DE TRANCOSO
(Autos arquivados na Torre do Tombo, armário 5.o,maço 7)

"Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas, da própria mãe teve dois filhos.

Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres".

[agora vem o melhor:]

"El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou por em liberdade aos dezassete dias do mês de Março de 1487, com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo e guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo".

Agora pergunto-me: serão estes os argumentos dos apologistas do NÃO à IVG???

Um Assunto de Mulheres

Por Inês Pedrosa, in Expresso Ed. nº 1526, 26 Janeiro 2002


«A enfermeira Maria do Céu fazia-se cobrar pelos seus serviços - até porque não tinha iates nem fundações a trabalhar para ela. Digamos que era um sistema afegão, da época talibã - que é o que vigora ainda hoje, nestes assuntos de mulheres, no Portugal do euro.»

Muitas mulheres portuguesas ainda são praticantes do masoquismo optimista que as faz acreditar que, se eles lhes batem ou se lhes proíbem o uso de métodos contraceptivos, é porque são ciumentos, e isso, lá bem no fundo, significa que lhes têm amor. Algumas mulheres são tão preguiçosamente optimistas que acham que a sua abstenção pode ser inteligentemente interpretada. Conheço muitas que, aquando do referendo sobre o aborto, se recusaram a votar por lhes parecer indigno o próprio referendo, que vinha desautorizar uma lei já aprovada na Assembleia da República. Perguntavam, essas ingénuas: «Então não é para nos representarem e legislarem que a gente paga aos deputados? E não choca ninguém, o dinheiro que se gasta a referendar uma lei já aprovada?» Acreditaram, estas optimistas-limite, que uma abstenção maciça os convenceria de que aquele referendo era iníquo. Esqueceram-se de que os deliberadores eram, simples e esmagadoramente, homens. Donde, concluiu-se que os 68,5% de abstenção eram a prova de que a maior parte da população não estava interessada nesses assuntos de mulheres.

Há também um determinado tipo de mulher que, desenganada dos movimentos colectivos, respira fundo e diz, à homem: «Agora, eu!» Sei de médicas que, depois de terem interrompido gravidezes a dezenas de mulheres, num risco assumido por solidariedade, votaram contra, temendo que a liberalização as obrigasse a fazer aquilo que dantes faziam por escolha. Neste ponto encontramos um dos nós cegos, não só do aborto mas da saúde em Portugal: a ideia arreigada e profundamente autoritária de que os senhores doutores é que têm direito a decidir sobre os destinos do corpo dos pobres ignaros que somos todos nós - e quanto mais pobres, materialmente falando, pior. Sabemos como continuam a nascer crianças com deficiências profundas de mães às quais os médicos sonegaram essa informação, para as impedir - contra a lei - de abortarem, se assim o desejassem. Conheço demasiados casos dilacerantemente reais - e alguém senta esses médicos no banco dos réus? Há semanas, li no «Público» esta cândida confissão da mãe de uma menina deficiente: «A Filipa é uma interrupção». Depois explicava como, detectada tardiamente a deficiência ( mais uma vez por ocultação do seu médico), lhe propuseram, aos seis meses de gravidez, uma interrupção legal - e aconteceu que, como era de prever, dessa interrupção saiu um ser vivo. Porque é que os médicos que fizeram esta tenebrosa «interrupção» são pessoas de bem e a enfermeira-parteira Maria do Céu, agora a cumprir uma pena de oito anos e meio de prisão, é uma criminosa?
E será ela mais criminosa do que, por exemplo, aquele pai condenado, em Março de 2000, pelo Tribunal de Almeida, a uns modestos seis anos e meio de prisão por ter violado e engravidado a própria filha? Será mais criminosa do que aquele homem, condenado em Junho de 2001 pelo Tribunal da Guarda a quatro anos e quatro meses de prisão por ter esfaqueado a mulher?

Porque é que há, logo ali em Badajoz, uma clínica de «tratamento voluntário da gravidez» que se anuncia nos jornais portugueses e em Portugal, com uma lei igual à espanhola, estas clínicas são proibidas, empurrando as mulheres do povo (aquela silenciosa maioria que não tem posses ou apoio para se deslocar a Badajoz) para a mais cruel - e muitas vezes mortal - clandestinidade?

A quem recorrerão agora as mulheres tristes e desesperadas, esmagadas pela miséria, pelo excesso de filhos, pela brutalidade dos maridos, que recorriam aos serviços da enfermeira-parteira Maria do Céu? Às agulhas de crochet? Ao veneno dos ratos? A enfermeira Maria do Céu fazia-se cobrar pelos seus serviços - até porque não tinha iates nem fundações a trabalhar para ela. Digamos que era um sistema afegão, da época talibã - que é o que vigora ainda hoje, nestes assuntos de mulheres, no Portugal do euro. Não havendo dinheiro, Maria do Céu aceitava como penhor coisas que no mundo respeitável dos doutores não se aceitam: pulseiras, relógios, valores diversos. Até um anel de noivado foi encontrado no seu cofre, o que diz muito sobre a solidão destas mulheres.

Mas arriscava, como se viu, vida e liberdade para arranjar a estas infelizes a bênção de uma anestesia, e receitas médicas que lhes permitissem poupar na conta dos medicamentos. Uma série de crimes que, em se tratando de gente desvalida como o era toda esta (enfermeira Maria do Céu incluída), sobrevivendo nos fundos de garagem do Portugal de sucesso, vêm sempre acompanhados do adjectivo «agravado».
Em 1988, Chabrol estreava um filme exemplar sobre a última mulher guilhotinada em França - foi em 1943, por prática de aborto. O filme chama-se «Une Affaire de Femmes» e desenha, sobre o rosto martirizado de Isabelle Huppert, um inesquecível tratado de humanidade.

Algumas mulheres são tão passivamente masoquistas que são capazes de votar contra si mesmas - por causa do padre, do marido, do inferno, da culpa e da vergonha, ferretes máximos do feminino. Mas não conheço nenhuma mulher tão masoquista que tenha prazer em abortar. Isso não existe - posso garanti-lo ao engenheiro António Guterres e a todos os senhores doutores e engenheiros que o acompanharam nesta cruzada medieval contra a dignidade das mulheres. Relembro as derradeiras imagens do filme de Chabrol, o olhar firme e devastado de Isabelle Huppert perguntando ao advogado-estagiário em que o senhor doutor delegara as despedidas derradeiras: «Tem filhos?» Pois é, senhor primeiro-ministro: como essa desgraçada Marie Latour, estas mulheres, que, por sua causa, foram devassadas e humilhadas, têm filhos.

DO YOU REMEMBER?



PLEASE DON'T FORGET THIS!!! IRAN OR USA OR OTHER COUNTRY!!!